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Fogos de artifício: ciência, história e responsabilidade social

O que está por trás do espetáculo que ilumina nossas festas

Recentemente, durante as festas de final de ano, assistimos, em praticamente todas as partes do planeta, a celebrações das mais diversas, moldadas por diferentes culturas. Apesar dessa diversidade, elas costumam ter algo em comum: o espetáculo cujo ápice corresponde à queima de fogos de artifício, que, como poucos outros, desperta intensa fascinação coletiva. As cores que se abrem no céu e os sons que ecoam nas comemorações acompanham a humanidade há séculos e tornaram-se símbolos de festas religiosas, cívicas e populares. Por trás desse encantamento, porém, existe uma longa trajetória histórica e uma complexa base científica — em especial química — que ajudam a compreender não apenas a beleza do espetáculo, mas também seus riscos e impactos.

Embora o público se encante com o show, poucos param para refletir sobre os múltiplos aspectos envolvidos, como a química das cores, o barulho dos rojões e os efeitos negativos sobre os seres humanos, os animais e o meio ambiente. Sobre esse tema, o artigo Aqui tem Química XIV: O Espetáculo dos Fogos de Artifício, assinado pelo professor Vitor Ferreira e colaboradores da Universidade Federal Fluminense, oferece ao leitor comum a oportunidade de se aprofundar no assunto. Com uma abordagem acessível, mas tecnicamente rigorosa, os autores demonstram que o fascínio provocado pelos fogos de artifício vai muito além do brilho no céu, envolvendo conhecimentos científicos, escolhas tecnológicas e implicações sociais e ambientais.

A origem dos fogos de artifício está diretamente ligada à invenção da pólvora, provavelmente na China do século VIII, a partir da mistura de salitre (KNO₃), carvão vegetal e enxofre. Inicialmente associada a rituais religiosos e festividades, essa descoberta rapidamente encontrou aplicações bélicas, revelando um paradoxo que acompanha a história da pirotecnia: a mesma química capaz de produzir beleza e celebração também pode causar destruição. Do chamado “fogo grego” bizantino aos modernos fogos festivos, a técnica evoluiu, mas manteve princípios fundamentais.

Do ponto de vista químico, a pólvora negra continua sendo o coração dos fogos de artifício. O salitre, ou nitrato de potássio, fornece o oxigênio necessário à combustão, enquanto o carvão e o enxofre atuam como combustíveis. Quando essa mistura é inflamada, ocorre uma reação exotérmica, isto é, uma reação química que libera grande quantidade de energia na forma de calor. Esse calor intenso provoca, em frações de segundo, a rápida expansão de gases quentes — principalmente monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO₂) e nitrogênio molecular (N₂) — gerados durante a combustão. Essa expansão impulsiona os artefatos e produz o estampido característico. O controle rigoroso da composição e do tamanho das partículas é essencial para garantir segurança e efeitos previsíveis.

As cores que transformam o céu em uma verdadeira tela luminosa resultam da presença de sais metálicos específicos. O aquecimento excita os elétrons dos átomos desses metais, que emitem luz ao retornar ao estado fundamental. Assim, o sódio (Na) gera tons amarelos, o estrôncio (Sr) produz o vermelho, o cobre (Cu) é responsável pelos azuis e o magnésio (Mg) pela luz branca intensa. A disposição cuidadosa dessas misturas no interior dos artefatos permite criar desenhos e sequências visuais que combinam ciência e arte.

Entretanto, os fogos de artifício não se resumem ao espetáculo visual. A poluição sonora provocada por explosões que podem ultrapassar 140 decibéis afeta animais domésticos e silvestres, além de crianças, idosos e pessoas com hipersensibilidade auditiva, como indivíduos no espectro do autismo. Soma-se a isso o elevado número de acidentes decorrentes do manuseio inadequado desses artefatos, que todos os anos resultam em queimaduras graves, mutilações e sequelas permanentes, configurando um relevante problema de saúde pública.

Há ainda impactos ambientais menos visíveis, porém igualmente preocupantes. A queima dos fogos libera gases poluentes — como óxidos de nitrogênio e dióxido de enxofre —, além de partículas finas e resíduos metálicos que contaminam o ar, o solo e a água. Estudos indicam aumentos significativos na concentração de material particulado e de metais pesados após grandes eventos pirotécnicos, agravando problemas respiratórios e ambientais, sobretudo em áreas urbanas já sujeitas à poluição crônica.

Diante desse cenário, surgem alternativas baseadas em inovação tecnológica e responsabilidade social. Os chamados fogos de baixo ruído, ou “fogos silenciosos”, reduzem significativamente o estampido ao substituir misturas altamente explosivas por formulações de queima mais lenta, preservando o efeito visual. Paralelamente, os chamados fogos ecológicos buscam minimizar o uso de metais tóxicos e de materiais não biodegradáveis. Não por acaso, diversos municípios e estados brasileiros já adotaram legislações que restringem ou proíbem o uso de fogos com estampido.

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de fogos de artifício, ficando atrás apenas da China. Mais de 90% da produção nacional concentra-se na cidade de Santo Antônio do Monte, localizada na região Centro-Oeste de Minas Gerais, e em municípios de seu entorno. Ao longo de mais de um século, o município consolidou-se como o principal polo produtor do país. A atividade pirotécnica constitui o eixo central da economia local, com impacto significativo sobre o emprego, a renda, a identidade cultural e a inserção comercial da cidade nos mercados nacional e internacional — motivo pelo qual Santo Antônio do Monte é frequentemente chamada de “capital brasileira dos fogos de artifício”.

Celebrar não precisa significar ignorar a ciência nem desconsiderar o bem-estar coletivo. Conhecer a história e a química dos fogos de artifício permite repensar tradições e adaptá-las aos desafios contemporâneos. Quando aliada à ética e à inovação, a química pode contribuir para transformar antigos espetáculos em celebrações mais seguras, inclusivas e ambientalmente responsáveis, preservando a emoção — sem abrir mão da consciência.

Para saber mais: SOUZA, A. S.; FERREIRA, P. G.; FERREIRA, V. F. Aqui tem Química XIV: O Espetáculo dos Fogos de Artifícios. Revista Virtual de Química, 2026, 18, 1–9. [Link]


Luiz Claudio de Almeida Barbosa, PhD

Prof. Titular de Química – UFMG

E-mail: lcab@outlook.com

Belo Horizonte, 27 de janeiro de 2026

Fonte: https://www.folhadamata.com.br/fogos-de-artificio-ciencia-historia-e-responsabilidade-social