Artigo convida à reflexão sobre o papel da ciência e da química no cotidiano e propõe diálogo entre saber científico e sociedade ao longo de 2026
Prof. Luiz Cláudio de Almeida Barbosa
O início de um novo ano costuma vir acompanhado de votos de renovação. Entre as muitas possibilidades de projetos e reflexões para 2026, convido o leitor a pensar um pouco sobre a ciência em seus diversos aspectos. Você já parou para refletir sobre como a ciência está presente em praticamente tudo o que fazemos — do ar que respiramos aos medicamentos que utilizamos? A sociedade contemporânea é marcada por uma forte dependência de tecnologias nas mais variadas áreas, como saúde, energia, comunicação e transporte. Esse desenvolvimento tem suas raízes na chamada Revolução Científica, iniciada no século XVI e consolidada ao longo dos dois séculos seguintes. Desde então, a ciência avança de forma acelerada, como descreve o físico e historiador britânico Derek de Solla Price em seu livro Ciência desde a Babilônia.
No século XIX, com a crescente especialização em todas as áreas do conhecimento, iniciou-se um processo de distanciamento entre as chamadas ciências naturais e as humanidades. Hoje, essa separação está tão consolidada que quem não tem formação científica frequentemente não compreende a linguagem usada pelos especialistas. Essa falta de comunicação acontece num contexto em que todos dependemos das tecnologias e descobertas científicas produzidas nos últimos cem anos.
Costumamos considerar cultas as pessoas que dominam temas das ciências humanas, como literatura, história e filosofia. Os cientistas, de modo geral, não entram nessa categoria, como bem observou Charles Percy Snow. Snow, que teve uma carreira de sucesso como físico na Universidade de Cambridge, também se destacou como escritor e intelectual nas humanidades.
Em 1959, apresentou uma palestra na Universidade de Cambridge em que denunciou a total falta de diálogo entre o que ele chamou de “as duas culturas”. Essa palestra foi publicada posteriormente no livro As duas culturas, que se tornou um clássico.
Snow destacou o empobrecimento tanto dos humanistas quanto dos cientistas devido à ausência de comunicação entre eles. Esse distanciamento se agravou ainda mais a partir da segunda metade do século XX, pois a crescente complexidade das ciências exige que o especialista se dedique cada vez mais intensamente a um campo específico, deixando pouco espaço para conhecer outras áreas. Essa separação não se restringe ao meio acadêmico, estendendo-se também aos profissionais e à população em geral, nas mais diversas comunidades.
Dada a importância dos diversos ramos das ciências em nossas vidas — especialmente a química — é fundamental que a pessoa tenha pelo menos algum conhecimento dos fundamentos dessa disciplina, uma vez que ela está presente em nossa vida desde o nascimento até o último suspiro.
A química, no entanto, não é muito popular entre os estudantes nem entre a população em geral, que frequentemente a veem como uma área inacessível e hermética. Uma possível explicação para isso pode estar associada ao uso de uma linguagem simbólica que soa incompreensível para quem não tem formação científica. Contudo, com um pouco de interesse, mesmo os não especialistas podem desfrutar do prazer de conhecer mais sobre o funcionamento do mundo químico — que descreve tudo aquilo que nos cerca.
Essa falta de conhecimento básico também contribui para que a química seja frequentemente associada, no imaginário popular, a aspectos considerados deletérios, como a poluição de águas, rios e do ar; o envenenamento decorrente de vazamentos em indústrias químicas — como o ocorrido em Bhopal, na Índia —; ou ainda os efeitos nocivos de muitos aditivos artificiais presentes nos alimentos, entre outros exemplos.
É com esse espírito de início de ano que convido os leitores da Folha da Mata a seguirem, ao longo de 2026, este espaço de diálogo, ampliando o olhar sobre a ciência. Em especial, sobre a química que permeia nosso cotidiano de forma silenciosa, mas decisiva. Ao longo do ano, pretendo compartilhar reflexões e exemplos que ajudem a compreender fenômenos, produtos e debates atuais em linguagem clara e acessível, dialogando também com temas do ensino superior e com a história das ciências. Em tempos de desafios complexos, fortalecer o conhecimento científico básico é um passo essencial para entender melhor o mundo que nos cerca.
Luiz Cláudio de Almeida Barbosa, PhD
Prof. Titular de Química da UFMG
13 de janeiro de 2026
Fonte: https://www.folhadamata.com.br/ciencia-e-cultura-um-dialogo-necessario