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Entrevista com Ana Luiza Dolabela de Amorim Mazzini |
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Ana Luiza Dolabela de Amorim Mazzini é engenheira química com especialização em Energia e Fontes Alternativas e Avaliação de Impactos Ambientais; técnica da Fundação Estadual do Meio Ambiente – FEAM, com experiência nas seguintes áreas: Planejamento Ambiental, Avaliação de Impactos Ambientais, Produção mais Limpa, Gestão de Recursos Hídricos e Resíduos Sólidos, Fiscalização e Controle de empreendimentos industriais e minerários, Educação ambiental; professora do curso de pós-graduação em Segurança do Trabalho da Universidade FUMEC, instrutora de diversos cursos na área ambiental do Instituto de Educação Tecnológica – IETEC e conselheira titular do Conselho Regional de Química – CRQ/MG. Autora do Dicionário Educativo de Termos Ambientais.
CRQ - O hermetismo natural da atividade científica, que exige saberes muitas vezes complexos para o entendimento médio da sociedade, em muitas situações cria dificuldades para que esta mesma sociedade participe de atividades práticas que podem melhorar a vida cotidiana. Por exemplo, o entendimento sobre muitas das questões ambientais, que são simples, mas que às vezes são expostas de maneira complexa (a questão das águas, por exemplo). De que maneira as comunidades científica e acadêmica podem diminuir esta distância entre a ciência e a sociedade? Ou seja, de que maneira a ciência pode encontrar uma aplicação mais pragmática, mais cotidiana?
Ana Luiza - Entendo que, no Brasil, precisamos urgentemente da democratização da informação de natureza ambiental para que possamos alcançar melhores níveis de conscientização e de cidadania. Para mim, para que a sociedade possa ter maior responsabilidade social e possa alcançar melhor qualidade de vida, é necessário que o desenvolvimento esteja alicerçado nos seguintes pilares: Educação, Saúde, Meio Ambiente e Cidadania. Quanto às comunidades científica e acadêmica, sou da opinião de que os trabalhos científicos e acadêmicos devem ter um cunho prático, devem ser realizados com base em demandas concretas da sociedade e que seus resultados devem ter uma divulgação mais ampla, para que a sociedade de uma maneira geral possa se apropriar e se desenvolver a partir de seus resultados.
CRQ - A comunidade científica, em especial a comunidade da química em Minas Gerais, vem debatendo a necessidade de aproximar as atividades acadêmicas e científicas das necessidades e realidades cotidianas da sociedade. Do ponto de vista prático, como isto é possível? O que vem sendo feito neste sentido?
Ana Luiza - O ano passado o Conselho Regional de Química da 2ª Região – CRQ/MG realizou diversos fóruns regionais sobre O Papel Social da Química e os resultados foram surpreendentes. Houve o envolvimento dos setores públicos e privados das áreas de ensino e pesquisa, ciência e tecnologia, das associações de profissionais e da sociedade civil como um todo. Houve demandas concretas para a melhor atuação do CRQ-MG que já estão sendo colocadas em prática e foram apresentadas no II Simpósio Mineiro de Química, realizado de 04 a 07/07/2006, no CEFET/MG, em Belo Horizonte.
CRQ - Felizmente as questões ambientais já ocupam um espaço de destaque nos ambientes sociais apropriados para o debate, como nas academias e na mídia, por exemplo. Este debate já começa a gerar resultados práticos? Em função destes debates, já é possível notar alguma mudança de comportamento das pessoas comuns diante dos problemas ambientais? E os demais setores da sociedade?
Ana Luiza - Já é possível notar mudança de comportamento de pessoas comuns diante dos problemas ambientais mas os problemas ambientais têm se agravado com a industrialização, com a quantidade de resíduos sólidos gerados, com o crescimento populacional, com o consumo exagerado, com a geração de gases de efeito estufa, entre outros aspectos, e resta saber se a conscientização e seus resultados estão crescendo numa proporção maior do que os problemas ambientais para que se tenha um saldo positivo.
CRQ - Quanto a química tem contribuído para a solução dos problemas ambientais? Quanto mais pode contribuir? Cite exemplos.
Ana Luiza - A Química permeia a vida e é por isso que, ao mesmo tempo, cria problemas ambientais e proporciona, também, a sua solução. A Química tem produzido cada vez mais novos produtos que, por sua vez, geram grande quantidade de resíduos; paralelamente, viabiliza a pesquisa e o desenvolvimento de processos produtivos mais limpos e a implantação de sistemas de tratamento para o controle de efluentes líquidos e atmosféricos e a gestão adequada de resíduos.
CRQ - Numa escala de zero a dez, qual nota você daria para o empresariado brasileiro no quesito “responsabilidade ambiental”? Porque?
Ana Luiza - Não há como dar uma nota geral. Existem tipologias industriais que têm um estado da arte bastante desenvolvido e cujos empresários estão sempre investindo na melhoria ambiental , da mesma maneira que existem tipologias ainda bastante arcaicas do ponto de vista ambiental, cujos empresários ainda necessitam de conscientização ambiental, do emprego de metodologias que proporcionem processos e produtos mais limpos e eficientes e que causem menores impactos ambientais.
CRQ - Se existe um quadro negativo no cenário ambiental brasileiro e mundial, como este quadro poderia ser modificado? Falo de ações práticas imediatas.
Ana Luiza - Hoje eu não tenho dúvida que o caminho a seguir tem que passar obrigatoriamente pela prevenção da poluição para que tenhamos melhores resultados. O controle ambiental é dispendioso e, no final, gera resíduos sólidos e semi-sólidos que, se não tiverem uma gestão ambiental adequada, voltam a realimentar o ciclo da poluição. Por isso, as empresas têm que investir cada vez mais na conscientização dos seus funcionários e na Gestão Ambiental Integrada, congregando as áreas de qualidade, meio ambiente, saúde e segurança do trabalho na busca de soluções mais efetivas. A responsabilidade social dos empreendimentos também deve ser buscada com persistência.
Do ponto de vista da sociedade, entendo que o mais importante é que haja a conscientização sobre o Consumo Consciente. Na nossa sociedade capitalista, o ato de consumo deve ser exercido com a maior responsabilidade tendo em vista que é a partir dele que estamos viabilizando, ou não, a continuidade de empreendimentos industriais, de prestadores de serviços, etc. Comprando produtos de empreendimentos poluidores, estamos dando o nosso aval para processos produtivos obsoletos, poluidores e sem responsabilidade social.
CRQ - Em que medida a educação, em qualquer nível - formal, alternativa ou complementar - pode contribuir para que este quadro negativo se reverta?
Ana Luiza - Entendo que a Educação – formal e não-formal, e a Cidadania são pilares estruturadores para a reversão do quadro negativo. O meio ambiente é um bem público e não há como ter uma boa gestão de um bem público sem investimentos na Educação visando à conscientização da população com relação aos aspectos ambientais e suas interações, além do resgate de valores essenciais como solidariedade, ética, respeito e amor que são a base para a responsabilidade ambiental e para a melhoria da qualidade de vida.
CRQ - Qual a gravidade da situação ambiental da Terra?
Ana Luiza - Sabe-se que os problemas ambientais atuais são graves e que as suas conseqüências já estão se fazendo sentir. Temos problemas graves ligados ao tratamento e destinação final de determinados resíduos perigosos, à geração de gases de efeito estufa, problemas de poluição atmosférica gerados por fontes fixas (indústrias) e fontes móveis (transporte urbano), problemas de contaminação de recursos hídricos superficiais e subterrâneos, problemas de poluição do solo, dentre outros, cuja gravidade ainda está sendo pesquisada e que, em muitas situações, conhecemos apenas a ponta de um grande iceberg.
CRQ - O planeta tem solução? Qual o seu grau de otimismo neste sentido? É claro que o planeta tem solução.
Ana Luiza - O homem, o maior causador dos problemas ambientais, tem capacidade e criatividade para encontrar as soluções para os problemas ambientais. Hoje, termos como desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, diagnóstico ambiental, efeito estufa, impacto ambiental, Estudo de Impacto Ambiental – EIA, Relatório de Impacto Ambiental já fazem parte do jargão político, econômico e técnico e as soluções para os problemas vêm sendo encontradas, tanto no aspecto preventivo, como no corretivo. Eu, pessoalmente, sou adepta fervorosa da prevenção á poluição que possibilita soluções mais efetivas, com menores custos do ponto de vista econômico, ambiental e social, e com menores prazos para a sua viabilização.
CRQ - Se as coisas continuarem caminhando como estão caminhando, quanto tempo o planeta ainda resiste?
Ana Luiza - Esta é uma pergunta muito difícil de ser respondida considerando a complexa interação entre os fatores ambientais, a capacidade de regeneração do planeta, a capacidade de adaptação dos seres vivos e a inteligência humana – racional, sensorial e emocional, que deve ser colocada em prática para a solução de tais problemas.
CRQ - E, se houver uma reversão imediata de tendências, quanto tempo levará para que a Terra retorne a condições seguras (em termos ambientais)?
Ana Luiza - Gostaria de ter condições de responder a tal pergunta, mas ela é de extrema complexidade pelo número enorme de fatores que interagem no meio ambiente e geram impactos ambientais diretos e indiretos.
CRQ - Qual a postura ideal do profissional da Química diante dos temas ambientais?
Ana Luiza - Entendo que deve ser uma postura ética e com responsabilidade social. Além disso, é preciso que haja investimento em conhecimento e prevenção. Hoje, o ramo de Química Ambiental é um dos mais promissores dentro da Química, necessitando da formação de bons profissionais nessa área.
CRQ - Qual a postura vigente? Ela está muito distante da postura ideal?
Ana Luiza - Considero que ainda exista uma grande defasagem. Um exemplo disso é que a maioria dos laboratórios de química não dispõe de tratamento de efluentes líquidos e resíduos sólidos gerados, mesmo utilizando produtos químicos de elevada toxicidade.
CRQ - Uma palavra final voltada para os estudantes que estão se iniciando nas atividades científicas, com destaque para as atividades da Química.
Ana Luiza - Gostaria de ressaltar a importância da Química e da Química Ambiental em termos sociais. Além disso, gostaria de ressaltar a função da Química na prevenção da poluição. Em Minas Gerais, foi criado em maio de 2006 o Fórum Mineiro de Produção mais Limpa (P+L) que tem sub-grupos voltados para a prática de P+L nos órgãos públicos, no setor produtivo, na Ciência e Tecnologia, na Educação e na Comunicação. A participação no Fórum possa se dar de forma institucional e também como pessoa física. Maiores informações podem ser obtidas na Fundação Estadual do Meio Ambiente - FEAM Fone: (31) 3298-6434, com Ana Luiza e na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais – FIEMG Fone: (31) 3263-4510, com Júnia. |
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Data de publicação: 08 de Agosto de 2006 |
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