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Entrevista exclusiva ao LQES NEWS, de Evando Mirra, Diretor de Inovação da ABDI - Agência Brasileira |
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Evando Mirra de Paula e Silva, nascido em Andrelândia (MG), em 1943. B.Sc. (Engenharia Mecânica e Elétrica), UFMG (1965); M.Sc. (Ciência e Engenharia de Materiais), COPPE, UFRJ (1968); Docteur ès Sciences, Université de Paris, França (1972); Aperfeiçoamento (Management of Quality and Productivity), George Washington University, USA (1984); Pesquisador Visitant: Universidades de Tóquio, Japão (1984), Berkeley, EUA (1988) e Compiègne, França, (1994-1996). Orientou 26 teses na pós-graduação e 50 alunos de iniciação científica. Desenvolve atividade de pesquisa nas áreas de transformações de fase nos materiais, interação gás-metal e engenharia de superfícies. Seus principais trabalhos incluem: determinação dos mecanismos de deformação de ligas superplásticas, fenômenos de envelhecimento após deformação e suas implicações no comportamento mecânico dos aços e dos metais hexagonais compactos, aços inoxidáveis ferríticos de nióbio e titânio, ligas ferro-silício, chapas para estampabilidade com bake-hardening, ligas titânio-níquel com memória de forma, mecanismos de precipitação em aços-silício de grão orientado para fins elétricos e magnéticos. Professor Emérito da UFMG. Pró-Reitor de Pesquisa da UFMG (1986). Vice-reitor da UFMG (1990-1994). Presidente do Centro Tecnológico de Minas Gerais - CETEC/MG (1998). Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (1999-2001). Membro da Academia Brasileira de Ciências. Comendador da Ordem de Rio Branco - Ministério das Relações Exteriores. Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico - Presidência da República do Brasil. Membre d'Honneur - Société Française de Métalurgie et des Matériaux (1995). Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos - CGEE (até 2006). Atualmente é Diretor de Inovação da ABDI - Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial.
LQES - Dr. Mirra, o Senhor passou longo tempo à frente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, aliás, desde a fundação do mesmo. Em sua opinião, quais os pontos altos do CGEE em sua trajetória?
EM - O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos é uma instituição nova, criada dentro do esforço empreendido pelo MCT, na gestão do ministro Ronaldo Sardenberg, de diversificação e modernização das estratégias de ciência e tecnologia no país. O resultado mais visível desse esforço foram certamente os Fundos Setoriais. Mas a própria concepção e implantação dos Fundos já exigiram a construção de fóruns de debate, para definição cuidadosa das questões em jogo, entendimento do contencioso, explicitação das divergências e construção de convergências. O CGEE foi criado com a missão de conferir permanência a esses processos, contribuir para a consolidação das atividades de prospecção e fornecer subsídios para o estabelecimento de programas mobilizadores e ações estratégicas em ciência, tecnologia e inovação. Nessa trajetória o CGEE trouxe também o seu apoio à Presidência da República e a diversos órgãos públicos e instituições privadas, interessados nos múltiplos caminhos em que se dá a inserção do conhecimento na agenda contemporânea do país. Acredito que o CGEE tenha trazido contribuições relevantes em questões como energias renováveis, nanotecnologia, acesso e utilização sustentável da biodiversidade. Mas talvez o mais interessante sejam as novas formas de inserção de CT&I na agenda nacional trazidas por instituições de interface como o CGEE.
LQES - O CGEE atuou fortemente no campo da prospecção de áreas e oportunidades em C&T&I. Perguntamos: qual a importância deste trabalho na definição e formatação de políticas para as diferentes áreas e setores?
EM - Estou convencido de que aí estamos no caminho certo. A forte mobilização de competência promovida pelo CGEE, em que o próprio LQES esteve envolvido, tem contribuído para formatar programas e organizar agendas relevantes de CT&I no país. Esta prática já se tornou corrente nos países avançados e deverá assumir um papel cada vez mais significativo. Trata-se sempre de um esforço coletivo, em que se busca gerar e organizar informação, transformar informação em conhecimento e transformar conhecimento em compromisso. Por isso, exige o envolvimento de múltiplos atores, representativos do ambiente acadêmico, do setor empresarial e do universo político. Os entendimentos assim construídos têm se mostrado preciosos para a implantação de programas e definição de ações mobilizadoras.
LQES - Sua atuação tem sido constante e significativa nas Conferências Nacionais de C&T&I. Em sua óptica, qual - ou quais -, os principais resultados decorrentes deste tipo de evento?
EM - Na medida em que as estratégias do país incorporem cada vez mais a dimensão conhecimento na abordagem dos problemas e na busca de soluções geradoras de riqueza e de desenvolvimento, espaços como aqueles fornecidos pelas Conferências se tornam cada vez mais essenciais. As Conferências representam momentos privilegiados para se dar visibilidade à questão científica e tecnológica na agenda do país, afinar a compreensão dessas questões, aferir os diferentes pontos de vista e construir uma visão compartilhada, propor novas soluções e construir alianças para o encaminhamento efetivo das propostas. Cada Conferência exige etapas preparatórias, que se desenrolam por vários meses e estão distribuídas pelo território nacional, onde se difundem informações, se elaboram diagnósticos, se estabelecem redes de trabalho e se firmam compromissos. O evento final, além de condensar esses esforços e permitir a organização de uma agenda, confere ainda maior visibilidade política ao lugar ocupado hoje por ciência e tecnologia na vida da nação.
LQES - Neste momento, o Senhor ocupa o cargo de Diretor de Inovação da ABDI - Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial. O Senhor poderia nos dar uma idéia de alguns dos objetivos específicos desta Agência e quais os seus maiores desafios?
EM - A Agência foi criada para lidar com as oportunidades geradas pelo estabelecimento da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior, e para contribuir na implantação da Lei de Inovação. São questões novas para o país, as mudanças não se fazem da noite para o dia, nem se passam por decreto. Pelo contrário, exigem um enorme esforço de informação, de convencimento e de articulação entre os diferentes atores - como empresas, universidades, centros de pesquisa, órgãos de governo e instituições financeiras - envolvidos. Alguns dos objetivos específicos estão vinculados à organização de programas de desenvolvimento setoriais e à definição de rotas tecnológicas adequadas para diferentes linhas da atividade econômica. Além disso, a ABDI está profundamente engajada no esforço de implantação das ações em áreas estratégicas para o país e na promoção das áreas portadoras de futuro, como a biotecnologia e a nanotecnologia.
LQES - A relação entre academia e setor produtivo ainda está longe de se configurar, em nosso país, como uma relação sinérgica, não obstante já poderem ser observadas mudanças importantes neste relacionamento. Como o Senhor analisa tal situação? Há possibilidade de modificação deste quadro a médio, ou mesmo longo prazo?
EM - Esta é de fato uma questão essencial e que exige tratamento cuidadoso. Temos, por um lado, nossas instituições universitárias e centros de pesquisa, com missões específicas, projetos próprios e complexos, e a obrigação de exercerem de forma competente o seu papel. A universidade, por exemplo, tem sua missão essencial articulada à preservação, produção e transmissão da cultura de um país, e à formação de cidadãos responsáveis e profissionais da mais alta competência nos diferentes campos do conhecimento. Temos, por outro lado, o parque empresarial encarregado dos produtos e serviços necessários à base material de subsistência e desenvolvimento da sociedade. São universos distintos, com tarefas específicas que não se confundem. Mas isso não significa que entre eles não deva haver diálogo. Pelo contrário, a experiência dos países avançados nos ensina como a excelência acadêmica é irmã da competitividade industrial, como a sinergia e a ressonância entre esses mundos gera benefícios mútuos e promove seu crescimento simultâneo. O quadro de isolamento, no Brasil, felizmente já vem sendo modificado e muitas das conquistas recentes do país representam ao mesmo tempo sucessos empresariais e avanço do projeto acadêmico. O notável sucesso da Petrobrás no domínio da tecnologia de águas profundas se fez, por exemplo, com o envolvimento de centenas de grupos acadêmicos de pesquisa. Estão ali muitos dos nossos cursos de pós-graduação de níveis seis e sete, tanto em computação de alto desempenho ou engenharia de estruturas, quanto em física, química ou ciências ambientais, em realidade em quase todo o leque de conhecimento. Esta é uma verdade universal. A convivência inteligente entre o universo acadêmico e o campo empresarial não apenas vitaliza, ao mesmo tempo, cada um deles, como parece ser ainda uma das condições fundamentais para a modernização e o crescimento dos países.
LQES - Uma pergunta final: como o Senhor vê, em nosso país, o futuro da Ciência, Tecnologia e Inovação?
EM - Não tenho dúvida de que já nos apropriamos da cultura da produção de conhecimento e de que, nesse aspecto, nosso futuro científico se apresenta muito promissor. Mas, para que realize plenamente seu potencial, é necessário ainda que se cumpra o que múltiplos sinais têm anunciado (basta lembrar a forma de participação da indústria na última Conferência Nacional de CT&I), e que o país incorpore de fato tecnologia e inovação como estratégias decisivas para a construção de seu destino.
LQES NEWS - Doutor Mirra, muito obrigado e grande sucesso em seu trabalho.
Nota do Managing Editor: entrevista feita pelo Professor Oswaldo Luiz Alves - Coordenador do Laboratório de Química do Estado Sólido (LQES) e Editor Científico do LQES Website e do LQES NEWS -, em julho de 2006.
Para acessar o LQES NEWS |
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Data de publicação: 03 de Agosto de 2006 |
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