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Entrevistas
    Entrevista com Ronaldo Vasconcellos (Vice-prefeito de Belo Horizonte)    
   1. Os processos necessários à existência humana e ao desenvolvimento da sociedade, possuem componentes que, desde o seu princípio, promovem a degradação ambiental. Deveríamos admitir que a simples existência do ser humano sobre o planeta é, por si só, uma componente nos processos de degradação ambiental? É possível o desenvolvimento humano sem degradação ambiental?

R - O que buscamos com nosso trabalho de ambientalista é que as intervenções na natureza sejam as mínimas possíveis. Todo empreendimento, seja qual for seu tamanho, causa impacto ambiental. Contudo, não podemos viver sem que haja energia, moradia, vestuário, equipamentos para tornar a vida melhor sobre a terra, enfim, temos de conviver de maneira mais harmônica possível com a natureza. Antes o homem quis dominar a natureza. Hoje ele precisa, mais do que nunca, saber utilizá-la de forma sábia.

2. Em linhas gerais, quais são os principais conceitos que devem ser considerados na condução de um desenvolvimento humano sustentável do ponto de vista ambiental?

R - Temos de tomar como base o princípio dos 3 erres: reduzir, reaproveitar e reciclar. Devemos ter em mente que o primeiro "r" é o mais importante de todos. Precisamos, antes de mais nada, respeitar o próximo. Lembrar que o ser humano só vai permanecer sobre a Terra, se tomarmos atitudes em favor do meio ambiente. Temos ainda de levar em consideração a participação popular nas decisões de se usar ou não um determinado recurso natural e como usá-lo.

3. Sei que não é possível. Mas, diante do atual quadro de degradação ambiental, considerando todos os aspectos negativos, tomando por hipótese uma imediata reversão deste quadro a partir da adoção de processos industriais limpos, da redução dos níveis de emissões de poluentes a patamares otimistas, enfim, da cessação do processo de degradação, qual seria uma expectativa plausível de retorno das condições ambientais aos parâmetros considerados ideais? Quais seriam estes parâmetros? (Neste caso, considerando a saúde do planeta e a existência da sociedade humana sobre ele).

R - Vivemos numa situação em que é preciso agir rápido. O processo de degradação ambiental vem de longe. Desde quando o homem passou a viver sobre a terra, ele tenta dominar a natureza. De alguns anos para cá, ele percebeu que faz parte dessa natureza e é necessário conviver com ela e nela. Não acredito que conseguiremos reverter a degradação ambiental sofrida pelo Planeta, mas temos a obrigação de preservá-lo para as gerações futuras. Essa, com certeza, é uma tarefa de todos nós.

4. Atualmente muito se fala em aproximar a comunidade científica e acadêmica da sociedade. O Conselho Regional de Química de Minas Gerais, por exemplo, tem empreendido esforços para promover facilidades de acesso da sociedade aos saberes da química. Faz isso por meio de palestras, fóruns e publicações. Como o Fórum de debates e trabalhos, que percorreu várias cidades mineiras ao durante oito meses, entre 2004 e 2005, debatendo questões relacionadas às interfaces existentes entre a química e a sociedade, cuja avaliação foi bastante positiva no meio acadêmico. Em que medida a comunidade científica e a comunidade acadêmica podem de fato se aproximar da realidade social cotidiana? (Considerando aqui o fato de os saberes científicos e acadêmicos pertencerem, em grande parte, à um universo hermético, acessível somente aos iniciados)

R - Entendo que a academia tem de dar respostas para os mais diversos desafios ambientais (de outros segmentos também). As nossas escolas superiores precisam trabalhar sobre um tripé básico: ensino, pesquisa e extensão. O que for produzido, em termos de conhecimento, nas escolas precisa chegar ao conhecimento da sociedade como um todo. Tanto a academia como as representações profissionais têm de estreitar seus laços com a população. Um povo será mais desenvolvido e seus problemas equacionados, na medida que isso acontecer de maneira cotidiana. Não podemos ter num mesmo país um grupo de pessoas que sabe tudo e outro que carece dessas informações. Temos escolas públicas de nível superior numa determinada região que ainda faz muito pouco para responder aos problemas de seus habitantes, principalmente os mais carentes. Isso precisa mudar.

5. Do ponto de vista das decisões políticas, técnicas e administrativas, existem questões que fogem ao alcance da sociedade. É claro que a sociedade sempre pode pressionar. Porém, sabemos que as pressões nem sempre alcançam os resultados desejados. Por exemplo, a questão das emissões industriais, sejam elas de qualquer natureza, pertencem muito mais ao âmbito da responsabilidade empresarial, do planejamento em toda a cadeia de produção, e ao âmbito da responsabilidade estatal da regulamentação, da fiscalização e da punição pelas transgressões, do que ao âmbito das pressões sociais. Em que medida o empresariado brasileiro é atualmente consciente de sua responsabilidade sobre as questões ambientais? Em que medida o estado, em todos os níveis de atuação, municipal, estadual e federal, exerce a sua função de maneira condizente com as reais necessidades?

R - Vejo que o empresariado, a cada dia mais, sabe de sua responsabilidade. O quadro hoje é completamente diferente de 10, 20 anos atrás. As empresas se preocupam com sua imagem e quem não cuidar dela pode ter seus produtos ou serviços rejeitados pelo consumidor. Isso vem acontecendo também com o administrador público. Se ele não desenvolver ações em favor da natureza, isso pode lhe trazer sérios problemas que vão desde responsabilidade criminal até uma resposta negativa nas urnas.

6. Se compararmos a consciência ambiental a uma árvore, que surge de uma semente, germina, se transforma em muda, cresce, floresce, dá frutos e gera novas sementes, em uma análise ampla (sem detalhamentos...mas, se quiser detalhar, fique à vontade), em que fase está cada um dos setores da sociedade? Em que fase está: a sociedade civil; a estado e os governos; o empresariado?

R - Entendo que todos estão num processo de aprendizado. Nossa sociedade ainda é muito nova se compararmos com civilizações da Europa, Ásia e África. Mas vivemos num mundo globalizado também no que se refere à natureza. Ações de agressões ambientais que acontecem no Oriente refletem rapidamente no Ocidente. Estamos vivendo agora os problemas das mudanças climática que afetam a todos indistintamente. Precisamos, independente de qual setor pertencemos, agir rápido para evitar um desastre maior com o planeta. Acredito que estamos vivendo uma fase de mais ação do que das denúncias, muito comuns nos primeiros anos do ambientalismo.

7. O que está faltando para que a consciência ambiental floresça amplamente em todos os setores? Falta investimento em educação? Falta vontade política? Falta responsabilidade social por parte do empresariado? O que falta afinal?

R - Vivemos um processo evolutivo também no que se refere às questões ambientais. Hoje está melhor do que ontem, mas ainda temos muito o que fazer. Fica bem claro que precisamos investir mais em educação, dar condições da população ter consciência crítica. Com barriga vazia fica difícil ter consciência. Entendo também que ainda falta vontade política por parte de alguns administradores públicos, mas acredito que na medida que a sociedade cobre seus direitos e avalie o político, essa situação só tende a melhorar.

8. Os profissionais da Química ocupam posições nos processos produtivos que podem ser decisivas com relação aos impactos positivos ou negativos sobre o meio ambiente. Como ambientalista e como professor, o que o senhor diria a estes profissionais? E aos estudantes de nível médio e superior que estão se preparando para o mercado de trabalho?

R - O mercado está aberto, mas é preciso ser ótimo naquilo que se propõe a fazer. É preciso ter conhecimento, informação, acompanhar cada movimento da sociedade. Não dá para ficar esperando que as oportunidades caiam no seu colo. O profissional de química ou de qualquer outra profissão tem de ir à luta. Se os empregos estão escassos, temos de ser criativos. Ai entra o empreendedorismo. Imaginem quantas coisas o profissional de química pode fazer no mercado e ganhar dinheiro com isso.

9. Qual seria o seu diagnóstico geral sobre a situação ambiental em Minas Gerais e em Belo Horizonte? O que pode ser feito para melhorá-lo? E o que já está sendo feito e merece citação?

R - Minas tem um bom arcabouço jurídico no que se refere às Leis Ambientais, tem um excelente secretário de Meio Ambiente, o engenheiro florestal José Carlos Carvalho, e tem buscado meios de aperfeiçoar seu sistema de meio ambiente. Ações como a descentralização do Copam, o aperfeiçoamento da Lei Robin Hood (melhorando a percentual de repasse aos municípios que protegem a natureza) e a descomplicação do licenciamento ambiental tem contribuído para aperfeiçoar o sistema. Contudo precisamos avançar mais, por exemplo, na questão dos recursos hídricos, dando condições de trabalho aos Comitês de Bacias Hidrográficas.

Em Belo Horizonte, temos uma boa estrutura no que se refere às questões ambientais, mas também precisamos buscar novos caminhos no que se refere a mudança de matriz energética, maior oferta de transporte coletivo com menor poder de poluição, melhorar nossa eficiência energética. Estamos trabalhando para isso. Tanto é verdade, que acabamos de criar o Comitê Municipal sobre Mudanças Climáticas e Ecoeficiência.

10. Como a ação política pode exercer influência, positiva e negativamente, sobre estas questões?

R - São os políticos que fazem as leis e as executam. Daí só vamos ter uma melhor qualidade de vida se ações políticas corretas forem implementadas. Mas tudo tem de ser feito com a participação da sociedade. Não dá mais para estabelecer leis e ações sem o aval da população. A gente sempre espera que os políticos estejam conscientes de suas responsabilidade, inclusive ambiental. É necessário promover o desenvolvimento tecnológico e o desenvolvimento social acoplados à questão ambiental. Existem uma série de ações para diminuir a pobreza, melhorar a qualidade de vida das pessoas e ao mesmo tempo preservar o meio ambiente. Precisamos sair do discurso para a prática. Isso tem de acontecer rápido. Quem tem necessidades básicas não pode esperar.

Muito obrigado.

Entrevistador: Carlos Alberto Rocha
 
  Data de publicação: 06 de Julho de 2006  

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